Entrevue: Marcelo Reis por trás das lentes, por Vanessa Paranhos

22 de janeiro de 2009

Entrevue: Marcelo Reis por trás das lentes, por Vanessa Paranhos

O fotógrafo Marcelo Reis (36) tem muito daquele típico baiano. De fala baixa, calma, conta com paixão o que faz, fala dos gestos dos personagens que captura, do prazeroso ato de fotografar, diferente do simples materializar imagens. Natural do bairro de Itapuã, de uma família de 7 irmãos, Marcelo é o único fotógrafo. “A relação com a fotografia surgiu de mim para mim mesmo”, conta. Talvez a observação e a percepção de cenas e personagens das longas viagens de Itapuã para o centro tenham contribuído. “Até hoje não aprendi a dirigir. Prefiro observar a cidade”, revela. Para ele, o trabalho do fotógrafo não é só a imagem, é também um pouco de tudo que envolve a captura.

Marcelo foi apontado por Walter Firmo como “jovem promissor fotógrafo da terra dos orixás”. Iniciou sua carreira na década de 90, quando ainda trabalhava numa loja fotográfica. Começou a ensinar fotografia em 1997, quando fundou a Casa da Photographia, uma instituição que promove cursos e estimula a cultura da fotografia na Bahia. Por este trabalho empreendedor, Marcelo obteve reconhecimento nacional depois do lançamento de vários projetos, entre eles eventos mensais com fotógrafos locais, nacionais e estrangeiros. Como fotógrafo, começou a expor profissionalmente também em 1997 e já expôs nos espaços da Caixa Cultural no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador. Seu trabalho focaliza as manifestações populares e seus elementos humanos, em cor ou preto e branco, assumindo também caráter documental. Nos últimos quatro anos tem dirigido o A Gosto da Fotografia, festival nacional de fotografia da Bahia, em parceria com a Pinacoteca do Estado de São Paulo.

Verena Paranhos: Quando você tem necessidade de “apertar o botão”?

Marcelo Reis: Se pudesse, eu fotografaria sempre. Porém, quando eu não posso fotografar por alguma razão, mas consigo ver uma bela cena, já me sinto satisfeito. Não lamento perder ou deixar passar o momento do que seria uma grande foto como fazia há 5 anos. Isso é fruto de um amadurecimento e auto conhecimento. Para mim, o ato fotográfico é um prazer e o prazer não está em materializar.

V.P.: Nos seus trabalhos, você mostra ser um fotógrafo versátil. Em Ritos Populares você se dedica à estética/documentação dos movimentos populares brasileiros tanto em cor quanto em preto e branco. Para você, que elementos definem cada tipo de fotografia?

M.R.: Não é a fotografia que é preta e branca ou colorida. Este já é o produto final de uma situação. Quando percebo algo, ele já existe, não é a minha fotografia nem o meu olhar que vai constituí-lo. Infelizmente poucas pessoas conseguem entender que na fotografia a cor ou a ausência dela é determinada pela situação em si. Por exemplo, o preto e branco, resulta de um silêncio profundo, concepção que influenciou o projeto Ritos de Silêncio, enquanto a cor alardeia demais, está sempre se autodetonando, é muito explosiva. Se em certo momento não tenho recursos que me permitam fazer uma foto em preto e branco, prefiro não fotografar. Não me encanta fotografar colorido e depois descolorir no Photoshop.

V.P.: Os elementos humanos têm destaque nas suas fotografias. Que valores influenciam seu trabalho autoral na busca de personagens?

M.R.: Apesar de pessoas estarem muito presentes nas minhas fotografias, eu não as fotografo simplesmente. Sempre busco fotografar a ação do indivíduo, algum comportamento de uma pessoa dentro de um contexto. O que mais me seduz é o gestual, a composição corporal, depois a combinação daquela pessoa com algum elemento presente na cena, como o contraluz. A mescla da pessoa com o que ela está fazendo ou sentindo é o que me leva a fotografar uma cena.

V.P.: Como você se comporta ao fotografar uma cena?

M.R.: Eu gosto de ser um ator invisível. Eu chego e saio sem criar nenhuma presença maior do que fotografar. Gosto de “roubar a cena”, como diz Walter Firmo. Para mim, a relação de um fotógrafo com seu modelo é quase um namoro. Eu prefiro um “beijo roubado”.

V.P: Que fotógrafos te influenciaram?

M.R.: Dois fotógrafos me influenciaram em momentos diferentes. Primeiro, quando eu ainda trabalhava numa loja fotográfica, uma grande influência foi Isabel Gouvêa, hoje uma amiga. Na loja, eu tinha acesso a fotógrafos profissionais, mas Isabel foi a única que se destacou no sentido humano, em relação ao que se faz e ao meio em que se vive, e me influenciou na forma de ser fotógrafo. Depois, quando eu já tinha a Casa da Photografia, conheci pessoalmente Walter Firmo, que esteve na escola fazendo uma reportagem para a extinta revista República. Walter é seguramente um dos maiores fotógrafos brasileiros e também trabalha os festejos populares e a brasilidade. Nós ficamos amigos e com ele eu aprendi a fotografar. Criamos um olhar muito parecido. Depois eu me desvinculei dessa influência e criei minha própria identidade.  Walter e Isabel têm uma personalidade muito parecida. Do contato com eles passei a ter uma personalidade de respeito ao que se faz, independente de qualquer coisa.

V.P.: O fotógrafo Walter Firmo no texto de apresentação da exposição Ritos de Silêncio afirma que “A fotografia não é uma inútil paisagem!”. Quais significados você buscou atribuir a essa exposição?

M.R.: Ritos de Silêncio (2002/2003) é fruto de uma boa fase na minha produção, quando eu e Walter fomos para o Maranhão. Representou o momento em que eu começava a ter certeza de que tinha me tornado fotógrafo, porque conseguia perceber fotografias em paisagens inúteis. O que eu busquei para transmitir nessa exposição foi o sentido do silêncio. Foi uma exposição em que me coloquei à prova em diversos aspectos: Walter fez o texto, Aristides Alves fez a curadoria.

V.P.: Como você costuma produzir exposições?

M.R.: Normalmente eu vou produzindo fotos por um tempo, depois paro e extraio um produto que se torna exposição. Eu prefiro produzir e depois colher, procurar uma narrativa. Eu posso produzir com um objetivo em mente, mas costuma ser muito difícil. Por exemplo, estou há três anos tentado trabalhar numa leitura fotográfica de Jubiabá.

V.P.: Além da fotografia, você também se dedica à elaboração, produção, captação de recursos, administração e curadoria de projetos relacionados à fotografia. Como você se divide entre a gestão administrativa e a produção artística?

M.R.: A parte administrativa é um processo muito difícil e trabalhoso para mim. Mas tem sido um aprendizado, estou sendo bem assessorado. Por exemplo, no último A Gosto da Fotografia, evento que estamos tentando consolidar há quatro anos, organizamos 11 projetos e estávamos muito atarefados. Apesar da Casa da Photografia ainda não ter a estrutura que desejamos, consegui ter tranquilidade por saber o que estava fazendo e pela certeza de que iria dar certo de alguma maneira. É natural que quem lida melhor com o lado artístico, não tenha tanto domínio de um processo técnico. Talvez se eu fosse um bom administrador a Casa da Photografia já teria fechado. Como um bom administrador, eu seria racional e diria “essa empresa não dá lucro”.

V.P.: Como surgiu, em 1997, a iniciativa de criar a Casa da Photografia?

M.R.: Inicialmente veio de um desejo particular e da percepção de que em Salvador não existia nenhuma escola de fotografia. Naquela época havia somente o Senac que dava cursos em intervalos muito longos e a Portfólio, estúdio de Antonio Olavo, estava fechando. Eu trabalhava numa loja de fotografia e via a busca das pessoas por um curso. Mas tudo surgiu por acaso. Uma pessoa que hoje é minha amiga, mas na época era cliente da loja, disse: “Marcelo, amanhã você vai dar um curso de fotografia e não diga não”. Então, eu comecei a dar o “Curso de Fotografia Marcelo Reis” e deu certo porque a demanda era boa, antes de terminar uma turma já tinha outra esperando. Eu tive que sair da loja na qual trabalhava porque não conseguia conciliar as duas atividades. Aluguei um espaço e depois surgiu o nome, Casa da Photografia. A minha ideia era além das aulas, ter livros e oferecer outras possibilidades às pessoas de aprenderem fotografia. Comecei a fazer parcerias, convidei Popó (Edson Porto), conheci Walter Firmo. O que a Casa da Photografia é hoje é o amadurecimento de uma ideia, mas ainda não é o que ela vai ser. O objetivo é que ela seja uma instituição mais estruturada quanto ao espaço, tenha uma galeria.

V.P.: Como você percebe o papel da Casa da Photografia hoje no cenário fotográfico soteropolitano?

M.R.: O papel da Casa da Photografia hoje em salvador é ser uma referência, inclusive nacional e internacionalmente. É a única instituição que consegue transitar pelos meios culturais e comerciais. Ao longo desses 12 anos construímos um banco de dados de fotógrafos, sendo um “ponto no oceano” para descanso nas pesquisas.  Se pararmos de atuar no cenário, a fotografia em Salvador regressa muitos anos. Por exemplo, quando começamos, o último movimento pontual relacionado à fotografia que tinha acontecido na Bahia efetivamente foi o Fotobahia, no final da década de 70 e início dos anos 80, uma iniciativa do grupo de Aristides Alves e Isabel Gouvêa. Segundo o livro História da Fotografia na Bahia: 1839-2006 de Aristides Alves, os fotógrafos da Bahia vieram desse grupo, Isabel Gouvêa, Aristides Alves, Mario Cravo, Adenor Gondim. Atualmente, pessoas que estão despontando no cenário fotográfico foram alunos da Casa da Photografia. Acredito que estamos dando continuidade a um processo que foi iniciado pelo Fotobahia.

V.P.: Para você, como está o mercado para a fotografia em Salvador?

M.R.: Hoje se tem um interesse maior pela fotografia de vários lados: quem produz, patrocina, expõe, vende e compra. Ela está mais respeitada pelo fato de se vender mais. Infelizmente predomina a mentalidade de produzir para vender. Em São Paulo e Belém existe uma relação de mais respeito com a fotografia. Aqui predomina o caráter de prestação de serviço, venda ou troca, diferente de um projeto específico que desenvolva a cultura. Tentamos fazer diferente. O maior mérito da Casa da Photografia junto ao curador do A Gosto da Fotografia é criar pessoas que pensem a fotografia e a desejem de uma forma diferente do que se respeita hoje. Além disso, encontramos em Salvador muito forte a questão da influência, de amigos, de quem você conhece. As panelinhas só mudam de ingredientes.

V.P.: Qual a importância de realizar parcerias para desenvolver projetos, como no caso do apoio dado pela Aliança Francesa, Instituto Sacatar e Palacete das Artes à 1ª Exposição Modos de Ver?

M.R.: Não existe uma ação na Casa da Photografia que seja realizada por ela só. Eu sempre busquei parcerias com instituições das mais diversas. Em função da nossa história, temos boas relações do Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), a instituição cultural mais cobiçada do estado, (e com) um restaurante onde poderíamos expor fotos no varal. Uma das nossas grandes parcerias se dá com a Pinacoteca do Estado de São Paulo, uma das maiores instituições brasileiras. Costumo dizer que a Casa da Photografia vive sem dinheiro, sem parceria não.

Aliança Francesa de Salvador

Av. 7 de Setembro, 401 – Ladeira da Barra. CEP 40130-000 – Telefax: (71) 3336 7599

Rua do Timbó, 422 – Caminho das Árvores. CEP 41820-660 – Telefax: (71) 3351 8562

Salvador – Bahia

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7ª edição, o A Gosto da Fotografia – Festival Internacional 2012

O Instituto Casa das Photographia de Salvador informa que em virtude de mudanças nos calendários de apoio à projetos culturais, tanto do Governo do Estado da Bahia e do Ministério da Cultura, quanto pela falta de patrocínio da iniciativa privada, a 7ª edição do Festival A Gosto da Fotografia 2011 será realizada em agosto/setembro de 2012.

Durante esse período a equipe do Instituto, ao lado do Curador Diógenes Moura, estarão trabalhando na mudança estrutural do festival que, em 2012, passará a atuar como A Gosto da Fotografia – Festival Internacional.

No próximo ano , além de toda a programação reflexiva com palestras, visitas monitoradas e oficinas, a 7ª edição do A Gosto da Fotografia – Festival Internacional terá em sua programação a grande exposição retrospectiva dos irmãos Carlos e Miguel Vargas, extraordinários fotógrafos peruanos, justamente no ano em que serão comemorados os 100 anos de inauguração do Estúdio de Arte Irmãos Vargas, fundado em 1912, em Arequipa, Peru.

A programação também terá uma leitura na obra de Aracy Esteve e de seu pai, José Esteve, fotógrafos baianos que atuaram entre Salvador e o interior do estado nas décadas de 1920 a 1960.

Para a 7ª edição, o A Gosto da Fotografia – Festival Internacional 2012 propõe uma maior interação com os fotógrafos baianos a partir de projetos ligados ao tema O Retrato. Todos os fotógrafos interessados deverão enviar seus projeto até o dia 29 de fevereiro de 2012. Maiores informações pelo e-mail agosto@casadaphotographia.art.br

A programação final da 7ª edição do A Gosto da Fotografia – Festival Internacional será divulgada em Abril de 2012.

Marcelo Reis . Diretor do Instituto Casa da Photographia de Salvador

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Novos cursos!!

 

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Praça Municipal . Salvador . Bahia

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Festa do Bonfim . Musica Mariene de Castro

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