Distância do olhar, A

Recife . Pernambuco

É preciso estar perto, muito perto, mesmo que não fisicamente, ouvir o fôlego, sentir o cheiro do suor humano ou até mesmo a pulsação excessiva.

O olho humano é dotado de uma eficiência que permite ao homem ver uma imagem que se coloca à distância de seu observador; tal condição interfere sensivelmente na percepção dos atos a que a ação esteja sujeita. Fotograficamente falando, podemos subverter esta ação através de mecanismos óticos conhecidos no mundo todo como lentes ou mais tecnicamente objetivas. As lentes permitem ao indivíduo observador penetrar na ação de tal forma, que poderá sentir o fôlego saindo pelas narinas de seu retratado, possibilitando assim um ganho no que poderíamos chamar de intimidade fotográfica; seria o mesmo que afirmamos que estivemos próximos sem estar. O ato fotográfico e determinante para a obtenção de uma grande fotografia, pois todos sabem que a distância física entre o retratado e o retratista influenciará diretamente na comoção dos atos; é preciso continuar invisível todo o tempo para poder roubar a expressão mais íntima de cada pessoa, independentemente do momento. Sabemos também claramente que o culpado ou a razão para essa transposição facial, se é que devo usar este termo, é unicamente, talvez o maior ganho da humanidade: a civilização. O individuo civilizado se protegerá da câmara fotográfica exatamente como quem se defende de um solavanco, absolutamente por efeito dos reflexos. Deste modo podemos perceber a influência do que chamamos de – A distancia do olhar –; é preciso estar perto, muito perto, mesmo que não fisicamente, ouvir o fôlego, sentir o cheiro do suor humano ou até mesmo a pulsação excessiva. Grandes fotógrafos se tornaram famosos e dignos dos reconhecimentos obtidos por ousar com a tradicional lente normal. Robert Capa mesmo disse que – uma fotografia só se tornará boa mesmo, se você estiver realmente perto. Sabemos que esta lente, a normal, confere à fotografia uma plástica natural, digamos que humana, sem distorções ou mesmo achatamentos da imagem; outros, porém, saberão usar sensivelmente a distância dada por uma lente de maior afastamento. Quanto maior o afastamento conferido por uma lente e quanto mais capaz for o usuário, melhor o resultado conferido ao trabalho. Numa situação, onde o afastamento ótico se torna essencial para a obtenção de um bom resultado, podemos notar como é determinante a utilização deste procedimento; obviamente, neste caso, a relação e a intimidade com os retratados ajudam a marcar e determinar qual o momento para oferecer à imagem mais real. Deste modo posso afirmar que uma boa relação entre o fotógrafo e o fotografado é essencial (quando possível) para um bom registro.

Marcelo Reis é fotógrafo e educador em fotografia.