Influência do olhar, A

Assim como um atleta que durante seu tempo de carreira precisa de um treinador para criar e trilhar com ele seu caminho a ser percorrido, o fotógrafo deve eleger uma figura, viva ou não, para ser seu “Treinador Visual”.

Quando descobri que iria fotografar, percebi também que iria querer ter alguém para me guiar, alguém que fosse meu “treinador visual”. Há dez anos atrás, uma fotografia que não lembro como chegou em minhas mãos. Lembro apenas que dividia com mais duas a capa de um convite de uma exposição fotográfica no Rio de Janeiro; me despertou para o mundo da fotografia. A partir daquela imagem eu afirmei que QUERIA SER FOTÓGRAFO, daí então comecei minha busca. Naquele momento a única certeza que passei a ter era de que eu queria e deveria fotografar daquele jeito, daquele estilo. Assim, eu comecei inconscientemente, a buscar a forma e o estilo daquele que hoje é considerado, e de fato é, um dos maiores fotógrafos brasileiros: Walter Firmo. Assim como um atleta que durante seu tempo de carreira precisa de um treinador para criar e trilhar com ele seu caminho a ser percorrido durante toda a sua atuação profissional, o fotógrafo deve eleger uma figura, viva ou não, para ser seu “Treinador Visual”. Diferente do esporte, esta figura permanece na fotografia até termos a consciência de VER com nossos próprios olhos e não mais depender dessa forma de fotografar do eleito. No caso da fotografia esse comportamento pode ser chamado de INFLUÊNCIA, a qual todos estão sujeito. Inicialmente os passos de alguns fotógrafos devem ser seguidos por quem deseja se lançar no ato fotográfico. Devemos conhecer a história do fotógrafo, as razões e possibilidades que levaram ele ao nível de amadurecimento em que ele se encontra. Não se deve esquecer que ao se buscar um “treinador visual”, deve-se também perceber afinidades com o escolhido, além do objeto a ser fotografado e de como eles miram (ou miravam) seu olhar. Tal comportamento é algumas vezes criticado pela classe fotográfica, mas com meus pouquíssimos 12 anos de estrada fotográfica tenho certeza de que, ter uma referência ajuda e muito na descoberta do “quem sou eu” ou “o quê e por que fotografar”. Na fotografia, é muito importante que este movimento seja bastante ativo e consciente para você não simplesmente copiar a figura a qual elegeu como “guru”. “Temos que ver com os olhos dele”, até o momento em que você perceber que começou a ver uma fotografia, a qual ele faria e você não mais a faz. Devemos estar atentos para a criação de nossos próprios vínculos fotográficos, os quais ajudam bastante no caminho profissional a se percorrer. Esse processo só será possível se tiver como princípio um outro trabalho Temos vários fotógrafos famosos que admitem claramente que fizeram uso deste mecanismo, e não por conta dessa atitude deixaram de ter hoje um trabalho magnífico e altamente pessoal. Já outros permanecem ainda “vendo sem os seus próprios olhos” e ainda assim preferem não tocar no assunto. Ver é uma questão muito sutil pois todos sabemos que não vemos quando estamos vendo. Quero dizer que o ato de ver deve ser sempre um ato do plano consciente do ser humano. Seria como andar, dirigir um carro ou mesmo falar. Não monitoramos estas atitudes a não ser quando elas ou nós estamos aprendendo a desenvolvê-las. É possível prestar atenção no nosso olhar, no nosso ver. É como se colocar por trás do seu olho um terceiro olho, mas não na fronte do rosto, e sim numa posição mas de monitoria. Deste modo teremos atos e efeitos na fotografia mas consciente, onde poderemos afirmar que de fato esta fotografia eu vi antes de fazê-la.

Marcelo Reis Fotografo é educador da Casa da Photographia em Salvador