Diante da dor dos outros. Um olhar sobre a obra de Chris Day

– Por ocasião da abertura da exposição de Chris Day na Aliança Francesa de Salvador, no dia 29 de março de 2007. –

Susan Sontag em 2003 escreveu um importante ensaio onde levantou a questão sobre os valores de imagens diante dos horrores da guerra nas últimas décadas.
Era a fotografia, sobretudo ela, a grande transformadora do modo de relação com que as pessoas recebiam as informações sobre tais fatos.

Chris Day produziu em 2006, e mostra agora em 2007, este ensaio fotográfico que busca discutir a questão dos valores da imagem fotográfica como ferramenta de preservação das manifestações culturais populares, diante das consequências dos efeitos da indústria cultural, neste momento. É a fotografia resgatando nas pessoas valores esquecidos ou sobrepostos pelos novos modos de relações numa sociedade visual.

O que muda? A fotografia, enquanto narrativa ou somos nós enquanto consumidores efémeros deste modo de comunicação? Na grande maioria das vezes, somos nós que mudamos e mudando muda-se também a narrativa visual.

Esta pesquisa fotográfica transcende primeiro valor narrativo segundo pela carga simbólica contida nas imagens aqui apresentadas. Transcende também na espontaneidade das pessoas representadas como ícones de um ritual onde o sentido de verdade não é confundido com o discurso teatral que a fotografia produz.

Existiu sim a intenção ficcional do trabalho, mas o distanciamento que Chris Day mantém de seus personagens enquanto investigadora confere ao Terno das Almas uma estrutura que transita bem, tanto pelo modelo jornalístico, ou de uma fotorreportagem ao despretensionismo de um ensaio estético. Competindo apenas com os lençóis brancos envoltos nos corpos que perambula pelas ruas frias e escuras das noites da Chapada Diamantina.

Ternos das Almas nos faz, ou poderia fazer, questionar sobre nosso comportamento diante da dor dos outros, nossa contribuição enquanto ator neste momento de transformação social onde a câmera fotográfica assume posição importante dentro dessa sociedade movida pelo visual e pelas ações e manifestações meramente efêmeras.

Marcelo Reis
Curador e Coordenador da Casa da Photographia
Março de 2007

Anúncios