Essencial é saber ver, O

Feira de São Joaquim . Salvador . Bahia . (C) Marcelo Reis

Ver sem estar a pensar.

Quando o poeta Fernando Pessoa referiu-se ao olhar num poema iniciado com estas palavras, ele provavelmente não estava fazendo nenhum tipo de referência ao ato fotográfico. Desde quando foi descoberta e efetivamente colocada em prática, a fotografia tem nos colocado diante, cada vez mais, de diferentes formas de ver. Mas afinal, o que é ver? Ao longo da minha existência fotográfica venho percebendo que sutilmente estamos ano após ano mudando nossa forma de ver. Hoje vemos mais, de forma mais simples e descomplicada do que víamos há cinco anos atrás. O homem contemporâneo com toda sua carga de civilização se adaptou mais rápido do que podíamos imaginar. Esta adaptação coloca nos fotógrafos numa constante atualização do modo de ver. É como compararmos o olhar a um programa de computador, que a cada ano recebe a sugestão de se atualizar para que fique tão eficaz quanto os colocados no mercado naquele momento. Bastante diferente do olhar e da forma de ver de um cidadão menos civilizado (civilizado no aspecto da relação com o mundo moderno, a exemplo de povos do Amazonas, eles sim tem um olhar bizantino, não vão usar máscaras quando vêm ou quando são visto). Podemos medir o nível intelectual do indivíduo, enquanto fotógrafo, pelo que ele é capaz de ver. Deste modo, posso dizer que podemos classificar os fotógrafos por nós conhecidos, principalmente aqui no Brasil, como os tipos A, que vêem sempre a mesma coisa, mesmo estando na Amazônia, na Bahia ou no tão falado Oriente Médio. Esses fotógrafos têm a capacidade de ver as mesmas luzes, as mesmas cenas e os mesmos atos. Outros fotógrafos tipo B, (não estamos nos referindo aqui a conceitos de qualidade, e sim a simples classificação de comportamento) são percebidos pela capacidade bizarra de mudar a linguagem dependendo da situação em que passe no momento. Mas afinal, o que é ver? A habilidade adquirida pelo fotógrafo à soma de observações visuais adquiridas durante a sua própria existência. Não nos é surpresa quando pegamos um livro de um fotógrafo estrangeiro e podemos ver no trabalho dele o estilo de um outro grande e importante fotógrafo, daí podemos perguntar-nos. O que eles viram?E até quando eles viram? Surpreendeu-me muito quando em visita a casa e biblioteca do fotógrafo francês Pierre Verger, aqui em Salvador (hoje atual fundação Pierre Verger – http://www.fpv.com.br) e passei a saber que ele possuía pouquíssimos livros de fotógrafos (é que ele admitia que não queria ser influenciado por outros olhares). Então, será que a visão fotográfica é motivada pelo que vemos? Sim. Precisamos educar o nosso olhar. Temos que monitorar a nossa própria visão. Temos que estar atentos para o que estamos vendo. Em suma, temos que nos reeducar visualmente para que possamos criar um fio condutor que vai fazer nascer o nosso estilo pessoal. Pensar em estilo pessoal é pensar em nos condicionar a uma forma de ver e de perceber, e, a melhor forma de fortalecer este condicionamento é deixar que sejamos influenciados pelo trabalho de um outro alguém. Esta influência é a sensibilização por um estilo já construído e que nos agrada. Os raros casos como o de Pierre Verger se torna possível através de um amadurecimento intelectual, o que leva o indivíduo a uma certeza de que só irá fotografar o que agrada a ele, ao que mexe com a sua mais profunda estima e intimidade, daí nasce às imagens puras e altamente pessoais. Não estando nós neste nível, o que nos resta é, a princípio, descobrir ou eleger um fotógrafo ou trabalho que exista algum tipo de coerência com o que acreditamos, como fotografia e comunicação não verbal. Daí então desenvolver ao longo de sua existência uma busca que pode muito bem se iniciar com uma pesquisa sobre este eleito. Pesquisar o que levou ele a ver desta ou daquela forma. Podemos admitir que seria impossível uma busca fotográfica sem o apoio de uma pesquisa, hoje temos o apoio permanente da internet, que fornecerá dados para as nossas buscas. Ver sem estar a pensar. O raciocínio pode distanciar o sentimento da razão. Porque pensamos muito quando o mais íntimo de nós já sinalizou para uma imagem que paira sobre o nosso olhar? Devemos nos atentar, pois o pensamento ou estado de plena consciência visual é também um estado de plena racionalidade e sabemos que muitos de nós quando tornamo-nos muito racionais podemos tornar-nos um indivíduo frio sentimentalmente. E que, fotografia enquanto imagem perceptível através do olhar, necessita muito da sensibilidade aguçada do indivíduo.

Marcelo Reis Educador em fotografia e fotógrafo, ministra aulas na Casa da Photographia, em Salvador. Para informações acesse http://www.casadaphotographia.art.br

Feira de São Joaquim . Salvador . Bahia . (C) Marcelo Reis

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