Maquinas de contar estórias e histórias

[Criatividade não é um atributo que se manifesta sempre ruidosamente, na expectativa de dar ao produto um certo encanto diferenciado, um brilho especial, para torná-lo visível para o mercado. Criatividade é a capacidade de agir transformadoramente, ao compreender a existência – em todos nós – de uma permanente insatisfação e inquietação a serem supridas pela busca fundamental do novo.

Luis Humberto – Fotografia, a poética do banal: 38, UNB, 2000. ]

Com o advento da internet e a implementação das câmeras de fotografias digitais, em âmbitos essencialmente domésticos, nossa história passa a ter um aliado

importante na documentação da realidade dos fatos, ocorridos de forma linearmente no decorrer dos dias. O fotógrafo doméstico, conhecido mais comumente como – fotógrafo amador –, dono de uma criatividade incontestável, passou a assumir, mesmo que involuntariamente, um papel fundamental na cobertura dos acontecimentos em tempo real e com tamanho envolvimento, e com um envolvimento tamanho que é capaz de transferir às capturas, sensações jamais absorvidas por melhor que seja o repórter fotográfico.

Esses equipamentos, teleguiados para ver o que os “corações” de seus operadores, os fotógrafos amadores, sentem, registram e produzem um número cada vez maior de ocorrências em filmes no dia-a-dia da humanidade, em locais e de forma mais íntima possível. O fotógrafo doméstico com sua câmera de churrasco, guardada nas bolsas ou em porta-luvas de seus carros, passou igualmente aos profissionais envolvidos, a exercer o papel de – historiador de suas próprias vidas –, assim como num filme de cinema de 16 quadros por segundo, gerando imagens mudas.
Esses filmes, guardados em malas empoeiradas ou em sacos de supermercados, contam histórias de vidas privadas que jamais teremos acesso.
A idéia, é que contadores de estórias tornem-se cada vez mais, contadores de histórias, contribuindo assim para a documentação da nossa realidade. O que teríamos? Uma produção assim como num filme, com tamanha personalidade, que em um momento distante, no futuro, a leitura do nosso passado se tornasse mais rica, obviamente, do que já é.
Um dos grandes crimes por nós cometidos, é a ação de rasgar fotografias imediatamente após a primeira olhada, ainda nos balcões das minilabs, não sabendo que, nós fotógrafos assim como alguns outros animais, sofremos duma espécie de depressão pós-parto, comportamento que acaba por colocar o fotógrafo, diante da necessidade desenfreada de rasgar ou matar suas crias. É natural, mas não devemos naturalizar, e sim guardá-las para serem analisadas em um momento oportuno.
Um perfeito consolo para nossos feitos é, sem dúvida, a publicidade contemporânea, ela que tem como meta convencer seu público consumidor sobre suas convicções, faz usoe, em grande escala, atualmente, de um enquadramento ou mesmo linguagem que é, em muito dos casos, de fotografias domésticas. Cortes, luzes, focos e modelos ou situações, que mais lembram as nossas fotografias dos nossos santos dias. Com isso percebemos a importância clara e evidente, da criatividade e do real significado do trabalho dos registros domésticos e de nossas câmeras de churrascos, elevando assim o número de imagens com função documental, e não meramente registros de fatos isolados.
A proposta, aqui sugerida, é a de que, todos nós, fotógrafos encomendados ou amadores domésticos, temos o mesmo grau de criatividade e de potencialidade, ao percebermos os fatos historicamente no seu desenvolver, e passar, no caso do menos compromissados, a adquirir uma preocupação maior com seu registro. Hoje, temos o hábito de fotografar, em grande maioria das vezes, o diz respeito egoísta e estritamente às nossas vidas, com isso deixamos de apontar nossas lentes para situações e fatos, que sem dúvida, se feito, estaremos contribuindo para a transformação e compreensão da existência.
Precisamos nos educar para esse novo momento da nossa história, onde estórias podem ser transformadas em histórias e com isso construir o futuro de nossa humanidade imediata de forma mais visual.