O Narrador Pós-Moderno, algumas considerações sobre a obra do fotojornalista ANÍSIO CARVALHO.

As fotografias de Anízio Carvalho [BA] narram a história da Bahia de dois pontos de vista: um de quem a experimentou e outro de quem, simplesmente, a viu e dela extraiu vários ensinamentos.

Foi Edilberto Coutinho quem decorreu sobre as questões das narrativas a quem dedico esta reflexão sobre a obra de Anísio Carvalho e que nos ofereceu uma definição sobre a participação do narrador diante de um fato histórico.

As fotografias de Anízio Carvalho, aqui apresentadas nesta justa homenagem, narram a história de forma especial. Ele conseguiu ser participante e observador de seu tempo prova disso é o resultado obtido em seus milhares de negativos que hoje são representados por esta síntese e que, como fótons luminosos, atenuam qualquer noite sombria.

Ao observamos as fotografias de Anízio nos tornamos um novo narrador. Desse modo, a sua fotografia compre seu objetivo clássico: o de transmitir conhecimento, comunicar. Nas suas fotografias, Anísio não se preocupa em alinhar a luz e nem o sujeito fotografado ao seu campo de ação. A sua maior preocupação, talvez inconsciente, seja a de construir, a partir de sua própria linguagem fotográfica, uma narrativa coerente ao seu tempo e moral. Pois ele sabe que, somente assim, suas fotografias conseguirão chegar ao futuro com os mesmos ensinamentos produzidos em sua época.

Vejo Anísio como um clássico narrador pós-moderno, pelo simples fato de fazer acreditar na autenticidade de seus trabalhos e de como ele foi construído. Através da sua própria e legítima reminiscência, ele não tentou recriar um real visual; ele o produziu.

A fotografia que nasceu em um ambiente totalmente positivista, crente que representaria fidedignamente a realidade, não contava com a possibilidade da liberdade do fotógrafo. A liberdade aqui referenciada é a capacidade que o narrador/fotógrafo passou a ter para transpor o quê e como se observou.Anízio Carvalho nos revela, nesta exposição fotográfica, uma Bahia íntima. O que os seus olhos perceberam sua câmera registrou. Guardou na memória da vida. Agora, alguns desses personagens continuam vivos. Alguns desses lugares, vistos aqui nestas fotografias, voltaram a existir, mesmo para muitos que como eu não estive lá.

As fotografias de Anísio conseguiram dizer o que palavras ao longo do tempo não conseguiram.

Marcelo Reis
Fotógrafo curador e diretor da Casa da Photographia
Salvador, inverno de 2007

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