Perfil do Repórter Fotográfico e jornalista Anízio Carvalho

JOELHO IMPERIAL

Ele é dono de uma das fotografias mais inusitadas da visita da rainha Elizabeth II, ao Brasil. Foi também, um dos primeiros jornalistas a documentar os restos mortais do revolucionário Lamarca, o que lhe rendeu, no retorno da viagem, um quase acidente de avião, que poderia ter lhe custado a vida. É o primeiro baiano a receber, em vida, uma exposição de seus trabalhos como homenagem por sua importância na documentação dos costumes da cultura afrodescedente, proferida pelo Museu Afro em São Paulo.

Anízio Circuncisão de Carvalho, ou apenas, Anízio Carvalho, como é conhecido por quase todos, tem hoje 77 anos, e quase 60 de atuação plena na profissão de fotógrafo.
Anízio é como poucos, um fotógrafo que fez de sua vida, um laboratório para a própria fotografia. Fez parte da geração dos poucos repórteres fotográficos que registrou o surgimento da nova Salvador, a partir da década de 1960, através de fotografias do cotidiano da cidade que, crescia a cada dia e, apagava, a todo momento, marcas do passado recente erguidas por nossos colonizadores e antepassados, durante mais de dois séculos de história.

Anízio tinha um costume, fazer fotografias extras, ou seja, além da quantidade necessária para a pauta que lhe era solicitada. “Certa feita, o editou me solicitou uma foto para a capa do fim de semana, sai então em busca dela e chegando na Praça da Sé, fiz duas imagens de um grupo de garotos em cima do muro da Rua da Misericórdia e uma outra de uma mulher que teve seu vestido suspenso pelo vento e deixou mostrar sua roupas pretas de baixo. A foto foi capa”. Foi assim que conseguiu construir boa parte de seu arquivo pessoal.

Quando chegou, aos 11 anos, na Bahia, como era conhecida a capital, Anízio, que nasceu na década de 1930, em Conceição de Feira, cidade a aproximadamente 100 km de Salvador, trouxe consigo uma única determinação, a de vencer e, se possível, pela fotografia.

“Meu pai me disse que eu só ia para a Bahia se tivesse como me sustentar e ser alguém. Não queria que eu viesse a ser como muitos, apenas senta-praça, soldados sem boa classificação”.

Encantado pelo cinema que era projetado todas as noites, através de ações do governo para campanhas de ordens sociais e de saúde, na praça de sua cidade natal. O ainda menino descobriu que naquelas imagens estava o que ele queria fazer. “Eu ainda não sabia o que, mas queria. Algo me encantava naquilo tudo”. Foi assim que passou a construir, para brincar com seus irmãos, as primeiras câmeras cinematográficas artesanais em miniaturas, feitas com recortes de revistas em quadrinhos, caixinhas de papel e vela. Criava as historinhas que podiam ser vistas com o auxílio da luz da vela projetada de dentro da caixa.

Assim que chegou a Salvador, no fim da década de 1940, Anízio foi trabalhar sem saber, na casa do pai de uma das pessoas mais importantes da história da fotografia baiana, o fotógrafo Leão Rosemberg, “Deus me colocou no lugar certo”. Nesta época, Anízio dividia seu dia com as atividades principais atribuídas pelo Sr. Russo, e com Rosemberg, que apesar dos 16 anos, já possuía uma câmera onde arriscava alguns clicks pela cidade de Salvador.

Entre a sorte e o merecimento

Emocionado, Anízio mostra seus equipamentos fotográficos, todos adquiridos durante seu tempo de repórter fotográfico. Duas câmeras Rolleiflex, uma Pentax, uma Nikon mecânica e uma semi-automática, pela qual demonstrou certa falta de intimidade. Uma delas, a Rollei, modelo 6×6, recebera do próprio Rosemberg pelos tempos de serviços trabalhados, onde foi chefe de laboratório até sair em outubro de 1957, para trabalhar no Jornal da Bahia (JB), convidado por seu fundador, o jornalista João Falcão, para criar o arquivo do jornal, inaugurado no dia 21 de setembro de 1958. Quando entrou para trabalhar como fotógrafo no hoje extinto JB, não imaginava que dalí, só sairia com a aposentadoria. Foi no JB que fez sua primeira fotografia com fotógrafo profissional, a do presidente Getúlio Vargas, em visita ao Bahia.

Com os gestos corridos, Anízio mostra uma coleção particular de, em torno, 50 fotografias. Entre as fotografias, imagens raras de Irmã Dulce, o jovem Luis Eduardo Magalhães, o incansável e ainda candidato à Presidência da República, Tancredo Neves, João Goulart e em outra fotografia, o cantor Roberto Carlos. Caetano Veloso, em sua versão hippie, também foi congelado por suas lentes. A cantora Maria Bethânia, Paulo Malufe dentre outros tantos para quais ele apontou sua câmera e imortalizou com seu click mágico.
As fotografias continham em seus versos, minuciosas referências sobre seus personagens, local e datas, todas escritas e catalogadas pelo próprio Anízio. Além de serem em preto-e-branco, as fotografias foram ampliadas e reveladas por ele mesmo, ”quando saía para fotografar, fazia sempre uma quantidade de negativos para o jornal e outra para meu acervo pessoal”. A razão da agitação é que ele está em meio à montagem de seu mais novo laboratório, na sua própria casa. Depois de passar quase duas décadas com um laboratório e um estúdio no Relógio de São Pedro, centro da cidade, Anízio resolveu mudar para um espaço, em sua própria residência.

Em uma das paredes do seu novo laboratório, ele mostra, com muito orgulho, duas fotografias emolduradas e nelas personalidades da política e sociedade baiana, Cosme de Farias e Luiz Viana, fotografados por ele.
Na outra parede, sustentava uma prateleira com alguns frascos plásticos escuros, escritos em seus rótulos os nomes de substâncias usadas para o preparo, por ele mesmo, de soluções para revelação de papel e filmes fotográficos, “eu mesmo revelo minhas fotografias, com as soluções que eu mesmo preparo. É muito melhor. Se o tempo está frio eu modifico a solução de preparo e a fotografia revelada fica com a mesma qualidade como se estivesse sido fotografada em um tempo melhor”.

O pequeno espaço, ainda comportava em cima de uma bancada, dois ampliadores fotográficos, um rádio modelo Motoradio, além de instrumentos e vasilhames para o seu ofício. Na outra parede deixava à vista, uma série de recortes de jornais antigos com matérias sobre seu reconhecimento profissional, além de alguns certificados de prêmios recebidos. O espaço que ainda estava em fase de finalização, deixava entrar bastante luz, o que impediria que ele trabalhasse durante o dia, “por enquanto só poderei trabalhar a noite, coloco uma cortina na janela e trabalho bem, na escuridão necessária para a revelação dos negativos e das fotografias”.

Dedicação sem pretensão

Nos anos 60, Quando a Rainha Elizabeth II veio a Salvador em visita oficial, Anízio fazia parte de uma equipe de seis fotógrafos do JB, todos foram escalados para a importante cobertura e foram distribuídos de forma estratégica pelo percurso em que a comitiva real passaria. O experiente Anízio, percebendo que seus colegas não dariam conta do recado, se posicionou de maneira a conseguir uma melhor fotografia para a capa do dia seguinte. Coisa que para ele, não era muito difícil.

“Estávamos impedidos de fotografar a rainha. Mas eu, muito esperto que era, furei a barreira e fiquei ali, em frente ao local que o carro oficial pararia. Como a minha câmera era uma Rollei, e com ela é possível fotografar com a câmera a altura da cintura, pendurada ao pescoço, foi possível roubar a fotografia sem demonstrar que estaria fotografando. Esperei a rainha sair. Quando ela pôs a perna para fora do veículo, apertei o botão disparador e sem saber, ainda, se tinha feito qualquer fotografia, fui questionado por um policial da guarda especial que estava ao meu lado. Ainda tentei disfarçar com uma tosse, mas parece que o militar tinha ouvido o disparar da câmera, pois perguntou se tinha feito uma foto, respondi que não”. Nascia assim uma das fotografias mais vistas da rainha, “o lance de seu joelho, o joelho imperial, como ficou apelidada pelos amigos”. A fotografia do joelho da rainha foi vendida para quase todos os jornais e revistas, da época, do Brasil e do exterior, e Anízio passou a ser conhecido nacionalmente pelo seu talento profissional.

Uma das razões que fez de Anízio um dos profissionais mais indicados para as pautas mais importantes, estava na sua postura profissional. Sempre fazia um pouco mais do que era necessário e não tinha tantas preocupações com o horário de trabalho. Para ele o importante era a realização do trabalho da melhor forma, sem preocupação com tempo e outras questões de ordem meramente trabalhista. Foi por conta desse profissionalismo, que Anízio foi pautado para fazer coberturas em viagens de muitas personalidades, entre elas algumas autoridades. E foi em uma dessas coberturas especiais, que pôde dividir o prazer pela aventura de voar e o fazer de uma pauta. O jornalista acompanhou governadores, prefeitos, políticos e tantas outras pessoas importantes. Sobreviveu a quatro quase acidentes aéreos. O primeiro foi com o então governador Juracy Magalhães. Depois, em uma viagem com Lomanto Júnior, também governador na época e a último susto foi quando retornava da cobertura de localização dos restos mortais de Lamarca, revolucionário brasileiro que se tornou bastante conhecido durante o golpe de militar, que instaurou no Brasil no período da ditadura. O avião teve de voar a baixa altitude até chegar a Salvador, “quando desci do avião, não consegui nem andar, de tanto medo que fiquei”.

Pelos olhos teus

Recentemente, Anízio recebeu uma das mais importantes homenagens de seus mais de meio século de história fotográfica sobre a Bahia. A homenagem veio com uma grande exposição, montada sob curadoria do Artista Emanuel Araújo que também é diretor, no Museu Afro, na cidade de São Paulo. “Emanuel montou a exposição com 70 fotografias, todas sobre cultura afro-brasileira. São fotografias de pessoas e atividades. Enfim, um grande apanhado sobre minha vida profissional”.
Depois dos sustos que quase lhe custou a vida, Anízio passou a não viajar mais de avião, razão pela qual recusou o convite de Emanuel para estar presente na abertura de sua própria exposição em São Paulo.

Antes que as homenagens a um dos fotógrafos que mais documentou a Bahia se encerrassem no Museu Afro, a Diretoria de Artes Visuais da Fundação Cultural da Bahia, Funceb, anunciou a abertura, prevista para o dia 21 de junho, de uma mostra sobre a Bahia, vista pelos olhos do profissional. A mostra deverá contar com as 20 mais expressivas imagens fotográficas captadas por Anízio Carvalho durante sua atuação como fotojornalista no JB. A mostra deve se chamar A Bahia de Anízio Carvalho. As fotografias vão mostrar em detalhe, uma Bahia em Preto-e-branco vista por poucos.

Todas as imagens, tanto da mostra em São Paulo, quanto a de Salvador, fazem parte do seu rico arquivo pessoal. Depois de uma forte chuva que caiu na cidade, sua casa, localizada no alto do Saldanha em Brotas, ficou com o porão totalmente alagado e quase todo seu arquivo que era guardado lá, ficou praticamente perdido. Anízio perdeu metade de seus seis mil negativos, sobrando apenas três. Estes agora estão bem guardados em caixas amarelas de papéis fotográficos da Kodak, e em envelopes dentro de seu arquivo no seu novo espaço, no terraço da sua casa, que assim, como sua própria residência, foi construído totalmente com dinheiro vindo de seus mais de 50 anos de dedicação exclusiva ao trabalho com a fotografia.

Saudosismo a parte, Anízio revela pequenos detalhes sobre seu novo projeto, “é uma coisa que estar aí mais as pessoas não se dão conta. Vou mostrar em pb e cor, é um grande projeto”.

O velho Anízio, como é chamado pelos mais íntimos, ainda faz fotografias profissionalmente, porém agora trabalha mais com as fotografias socias – fotografias de eventos particulares-, “cobro caro, mas o trabalho é de qualidade, todo em 6×6”. Casamentos e outros eventos ainda fazem parte do dia-a-dia do fotógrafo que fez de sua vida uma escola para muitos profissionais. Ele retribui hoje a oportunidade que teve de começar sua carreira e conviver com importantes profissionais, e retribui com muita satisfação tudo que aprendeu pelas redações e laboratórios da vida.

Marcelo Reis [Entrevista em 05 de junho de 2007 em sua residência, na Rua Alto do Saldanha, 70 Brotas]

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