subjetividade do ser fotógrafo, A

Escrito em, 23 de fevereiro de 2005

“Talvez a verdadeira fotografia…”, …“seja um monte de fragmentos de imagens privadas, sobre o fundo amarrotado dos massacres e das coroações.” (Calvino, Ítalo. “A aventura de um fotógrafo”. In. “Os amores difíceis”. 1990. Companhia das Letras. São Paulo, 2002. pp. 64.)

No final do século XIX com a consolidação da Escola de Paris, que foi responsável pela aglutinação de cinco dos principais nomes da fotografia do mundo – Eugéne Atget (1857-1927), André Kertész (1894-1985), Brassaï – Gyula Halász (1899-1984), Henri Cartier-Bresson (1908-2004) e Robert Doisneau (1912-1994) -, a fotografia moderna estreava, apresentando ao mundo uma nova forma de fazer fotografia acrescentando à imagem algo a mais do que a tradicional objetividade até então já conhecida. A partir deste momento, o fotógrafo precisava acrescentar aos seus registros movimentos ficcionais, nos quais o observador demandaria de um pouco mais de tempo, definido no seu próprio espaço/tempo, para compreender o que o fotógrafo passava a apresenta diante de seus olhos.

“Uma foto grava uma sensação através dos desenhos que pode extrair de objetos reais. E uma sensação é sempre diferente em cada individuo, surge de forma inexplicável diante de situações ou circunstância inesperadas e sem ampliar o auto conhecimento.” (Oliveira, Moracy R.. Fotoptica. “Mário Cravo Neto”, Maio/junho 1985, pp. 14).

Estas sensações preconizadas por Cravo Neto (n. 1947), tem sido atualmente algo pouco observadas ou sentidas no fazer fotográfico. O subjetivo, a nossa própria essência ou menos ainda, um simples conceito, nos tem faltado durante a elaboração de um trabalho fotográfico. Para alguns é chegado o momento da fotografia passar para a outra margem.

Depois de 1924, com o aparecimento da fotografia de 35 mm com as Leicas (Jonson H.W. História geral da Arte, 2001. pp. 1045,), a elaboração ou execução da fotografia ganha mais praticidade, oferecendo assim uma infinidade de novas possibilidades, sobretudo conceituais. O fotógrafo ganha mais autonomia para criar, transformas idéias em realidade. A câmara, e suas possibilidades técnicas que até então eram personagens principais dessa produção, agora ocupa posição de mera coadjuvante, transferindo para o fotógrafo a total responsabilidade sobre a materialização do ver, ela que ocupou ponto estratégico no corpo do seu operador – o olho -, deve, em busca de uma subjetividade maior, procurar novos pontos de partida. É do vasto (mais de 60 mil imagens produzidas quando colaborou no Brasil com O Cruzeiro, entre 1946-1951, e a partir de um segundo contrato, entre 1954-1957 para O Cruzeiro Internacional) trabalho do fotógrafo francês Pierre Verger (1902 – 1996) que observamos a utilização constante da câmara em níveis não tradicionais ao do olho, por conta do tipo de equipamento que ele utilizava, uma Hasel, com visão ao nível da cintura. Não só o deslocamento do equipamento como a utilização de tempos de exposição mais longos, oferecendo um movimento não físico a imagem; luzes débies; cortes com rupturas bruscas e sobre tudo o aproveitamento do estágio de pré-composição ou mesmo estágio caótico na formação da composição.

Precisamos reproduzir a nossa realidade, o nosso tempo, tendo com referencia sempre o nosso contexto sócio-histórico. Hoje a humanidade vive em um processo de degradação, um tremendo caos, facilmente percebível na sociedade moderna, em nosso cotidiano, e é esta realidade que falta ser reproduzida juntamente com a natureza a ser fotografada nas nossas novas fotografias, incluído nos nossos estudos fotográficos, em nossos ensaios. A objetividade imagética já nos é conhecida, vista,estar presente no nosso dia-a-dia. Falta agora a subjetividade, o Eu, o Outro. Uma das faltas mais recorrentes nas atuais fografias foi o que o próprio Vicente Van Gongh preconizou em uma de suas cartas ao seu irmão Theodore, o “Theo”, quando ofereceu uma sábia definição sobre o sentido da Arte:

“A Arte é o homem acrescentado à natureza. …Mas com significado, com a concepção, com um caráter, que o artista ressalta, e aos quais da expressão, ´resgata`, distingue, liberta, ilumina.” – fotografa (grifo meu). (Van Gongh, Vicente, 1853-1890. Cartas a Théo. C 130-Wasmes Junho de 1879. L&PM. Porto Alegre. 2002. pp.38).

Então penso que, se esse homem somos nós e essa natureza é também o objeto da fotografia, e somos o sujeito, mesmo que muita das vezes objeto também. das nossas naturezas fotográficas, o que nos falta, somos nós. É preciso colocarmos um pouco de nós mesmos nas nossas próprias fotografias, nossas verdades, nossas convicções.
A fotografia liberta da obrigação de representar a realidade e reproduzir o real, convida ao desconhecido, ao mítico, aquilo que está além do que é visto, do que é entendido pela nossa racionalidade ocidental.

Com a câmara na mão, o que nos falta é muito pouco, sobretudo com os ganhos que o ato fotográfico vem adquirindo hoje, entre eles, o advento das câmaras digitais, que dispensa o fotógrafo das preocupações com os altos custos de filmes e posteriores processos para a obtenção da imagem. Concomitante a tudo isso, temos a redução no tempo de ver o resultado da sua caçada, o fotógrafo a partir de agora pode investir mais no seu trabalho de campo, tempo conceitual, tempo físico. A câmara fotográfica digital passa desde então entendida e aceita como uma nova e satisfatória possibilidade para a elaboração de novos trabalhos, o suporte – emulsão de gelatina e prata – não deve prescindir a imagem. Temos de nos tornar produtores de imagem e não meros colecionadores de papéis, suportes fotográficos.

“…Voltam satisfeitos como caçadores com o embonal repleto, passam os dias esperando com doce ansiedade para ver as fotos reveladas (ansiedade a que alguns acrescentam o prazer sutil das manipulações alquímicas na câmara escura, vencida às intrusões dos familiares, exalando um cheiro acre dos ácidos) e somente quando pôrem os olhos nas fotos parecem tomar posse tangível do dia passado, …” (Calvino, 1990. pp. 51)

Hoje o fotógrafo conhecedor de verdades e de si próprio passa a ter elementos suficientes para produzir e se estabelecer no espaço tempo da imagem fotográfica, a fotografia contemporânea passeia por roteiros não oficiais, ambientes tosco, caminhos, apesar de sabido, pouco conhecidos. É preciso explorar, observar, ter coragem para participar e sobre tudo ser participante, fotografar, existir.

Marcelo Reis
Fevereiro de 2005
Fotógrafo
Coordenador Diretor – Casa da Photographia, Salvador – Bahia