Três minutos para a eternidade . uma crônica

19 de outubro de 2006 . Marcelo Reis
Baseado em fatos reais, o desastre do avião GOL em viagem de Manaus para o Rio de Janeiro.

A esperança foi a primeira que se foi. Foi pouco tempo, estava dormindo, sonhava com uma queda que tive de uma gangorra quando criança, debaixo de uma grande mangueira que tinha no fundo de casa. Naquele dia pensei que morreria, fui jogado de uma altura muito grande, e o mato aonde cai foi tão denso e cheio de galhos que tive a certeza que daquela não passaria. Naquele momento, pensei na minha mãe, tinha saído de casa sem o consentimento dela para ir brincar.

Na queda, o barulho foi muito grande, uma explosão e gritos foram as únicas coisas que ouvi. Depois tudo foi subitamente silenciado por uma grande escuridão. Foi como se estivesse mergulhado numa imensa e enfadonha massa negra.
Costumava dormir sem o relógio próximo a cama, e a escuridão do quarto que, apesar de ter uma janela para o porto da cidade, não permitia a livre entrada da luz. Naquele dia estranhei. Desconfiei que algo estava errado. Os navios faziam um estardalhaço ao aportarem pontualmente. Meu quarto ouvia tudo, não dizia nada. Naquele dia foi diferente. Já tinham se passado mais de uma hora, e o selênico imperava. Pulei da cama. Pela posição do sol, não tive dúvida. Estava atrasado.
Ia embarcar naquela tarde e ainda tinha coisas a fazer no escritório. Como se estivesse a prever o futuro, na noite anterior, arrumei toda a bagagem que levaria na viagem. Voltei a ter a sensação de que algo estava errado.
Do escritório peguei um táxi que me levou em casa e depois para o aeroporto. O motorista, um senhor de barba branca, ficou calado durante todo o tempo. O rosto dele me chamou a atenção. De novo aquela percepção de que algo parecia estar errado. A avenida que me distanciava da minha casa, até ao aeroporto era uma via reta e plana, o que me permitiu observar por, talvez dez minutos, a minha casa. Fitei os olhos nela até se desfazer por completo no desbotado espelho do carro.
No embarque, parecia que todos estavam atrasados, eram muitas as pessoas que ainda faziam suas verificações. Do nada percebi que o senhor de barba branca, olhava-me como quem se despedisse. Olhei para ele, retribuir o olhar, sutilmente virou-se e sumiu. De repente, aquela sensação me tomou mais uma vez. Mas a vontade de estar na cidade maravilhosa a pouco menos de quatro horas, rever toda minha família a qual via uma vez por ano era infinitamente maior.
No avião, meu assento escolhido foi na janela. Apertei os cintos, ouvi as moças de branco, olhei pela janela e já no alto percebi as águas barrentas do imenso rio que banhava quase toda a cidade. Quanto mais a aeronave subia, mais me dava conta da dimensão da floresta. Estranhei nunca ter percebido sua grandeza.
Por conta da noite corrida do dia anterior, adormeci rápido sendo acordado depois por uma forte pressão que me impedia de mover meu corpo, para qualquer que fosse a posição, mal consegui virar meu rosto para a janela, foi tudo muito rápido, não entendia por que voltava a ver a floresta. De repente, a voz do comandante. Era impossível acreditar no que ouvi. Talvez tive três minutos, para dar conta do que se passava, três minutos que pareceram uma eternidade.

Quando voltei a ver, estava no alto, vi a floresta de cima. Tinha algo diferente nela. Observei, cheguei um pouco mais perto e vi, um avião branco. Estranhei. Tentei ver se tinha pessoas e me vi, estava dormindo com rosto voltado para fora. Sentei-me ao lado, como era estranho, parecia um sonho. Fiquei ali esperando-me acordar. Mas nada mudou, e o tempo parou.