Uma câmera no olho e uma prévia idéia na cabeça

Cortejo da Lavagem do Bomfim . janeiro 2010

Produzido em 10 de abril de 05 .

[…] fotografias são imagens técnicas que transcodificam conceitos em superfície. Decifra-las é descobrir o que os conceitos significam. […], Vilém Flusser. Filosofia da Caixa Preta

Verdadeiramente a fotografia tem alcançado proporções inatingíveis na nossa capacidade intelectual.
Hoje, mais do que em outras épocas, fotografar significa dominar plenamente seu equipamento, domínio associado à visibilidade prévia dos fatos a serem registrados. O equipamento e suas representações técnicas é dotado de duas possibilidades. Duas reações para uma mesma ação. O sistema funcional da câmera fotográfica sustentada em um tripé que tem em cada perna uma das funções vitais da operacionalidade da fotografia, oferece ao fotógrafo no momento decisivo, a oportunidade de escolher entre o elogio e a loucura.

O diafragma, o obturador e o fotômetro. Estas pernas sustentam a formação intelectual das imagens, a imagem subjetiva. Hoje com a modernidade da fotografia, as imagens estão cada vez mais carregadas de significados, que são ao mesmo tempo, imagens e algo inexististe. Usar corretamente qualquer uma das pernas deste tripé, não significa apenas equilibrar matematicamente, a quantidade de luz vezes o tempo que ela mesma irá gastar para decompor a emulsão e transforma-la, como bactérias, em imagens adoradas por finos paladares.

O olho humano é dotado juntamente com nossa racionalidade, de perseber além do objeto olhado. O diafragma, por sua vez é dotado da capacidade de mostrar, a uma terceira pessoa como o fotógrafo percebeu aquilo que lhe foi fotografado. Através do diafragma é possível diminuir a zero as fronteira entre o que é olhado é o que visto. Então devemos criar no nosso imaginário prévio a estrutura das imagens em seus diversos planos. O diafragma então registra o que o olho humano é capaz de ver. A escolha dos valores de suas diversas aberturas não deve ser única e simplesmente por razão de quantidade de luz fisicamente falando. Ou melhor, os diafragmas não deverão ser abertos em função precariedade da luz e nem tão pouco fechado quando o sol latejar no azul marinho do céu. O diafragma então deverá ser aberto ou fechado quando, em função das sensações prévisível, pelo fotógrafo.

Por outro lado o obturador, trabalha com o invisível. O olho humano não é capaz de ver em tempos diferentes daqueles que nos foi dado ao nascermos. Trabalhar com o movimento exige do fotógrafo a capacidade de ver no escuro. Prever o movimento é o mesmo que fixar-lo em uma seqüência de ações imagináveis. Mais uma vez, determinar a obturação, jamais devera ser em unicamente função da variação da luz, e sim pelas sensações captadas por imagens concebidas na decodificação da realidade.

Então como fica a função do fotômetro? Gestor irracional que não ver um palmo além do que lhe mostrado. Os fotômetros sevem unicamente como canais de transferência direta de informação. Sem ruídos, porém atendendo unicamente a objetividade do equipamento. O fotômetro, bengala para cegos, são ao mesmo tempo verdades incertas, dispositivos que atendem a leituras das luzes. É onde ficam as sombras? Os contrastes sutis das luzes débeis, pouco sentido pelo egoísmo intolerante do medidor? Cabe então ao fotografo dominar sua visão diante da luz que ao mesmo tempo em que é imagem é de novo invisível, é uma não-imagem. E direcionar o fotômetro para equilibrar as pernas do nosso tripé para apoiar com firmeza algo que é insustentado devido a grande leveza que é a imagem.