Diário de uma [outra] Expedição[1] . Exposição Francisco Vieira

Antártica

Ao invés de papel e caneta, câmera e luz; ao invés de jornal, uma galeria. O trabalho de Francisco Vieira, engenheiro por opção e fotógrafo por convicção, me faz lembrar a precisa descrição das cenas e dos acontecimentos vivenciados pelo ilustre carioca Euclides da Cunha, no sertão da Bahia. Vieira cria no texto uma imagem de uma terra distante, desconhecida, mas compreensiva o suficiente para um pleno conhecimento dos fatos. As lentes do fotógrafo reescrevem uma Antártica íntima, longe daqueles clichês frios e pálidos, sempre mostrados quando o assunto é tratado. Vieira busca a luz no infinito do planeta. Busca cores entre as camadas milenares de fino gelo, solidificadas pelos tempos perdidos.

Francisco Vieira nos mostra outro sertão. Se aqui temos calor e terra vermelha, lá existe o frio e algo que podemos chamar de terra branca. A rocha revestida em neve de uma das fotografias lembra uma família que avista de longe alguém que há de regressar de um dia de trabalho, fosse ele na terra ou no mar. Sua lente flutua por entre os icebergs, garimpando a mais fina luz refletida sobre o mais denso bloco de gelo que, assim como um sertanejo, vaga por um imenso pasto em busca de seus objetivos.

As nuvens pesadas nos acolhem. Guiam nosso olhar para reflexos leves e fosforescentes, mergulhados em águas mortas e frias. Águas que seduzem pela beleza captada pelos cristais, ordenados pelos sentidos de Vieira, que tinha como objetivo transmitir em suas fotografias as mesmas sensações que sentira estando a bordo de, imagino, um grande navio; assim como as mesmas pesadas nuvens, estava ele a flutuar sobre as finas camadas de gelo.

Francisco escreve com sua câmera uma grande reportagem que, aqui, nesta pequena nota, composta por uma dúzia de imagens/palavras, nos dá a nítida sensação do magnífico planeta chamado Terra, da magnífica diversidade de sertões, sol e mar que é este nosso mundo. Faz-nos ver como é possível mostrar uma mesma realidade, por mais semelhante que seja, de uma forma sensacionalmente diferente.

Marcelo Reis . Fotógrafo

 


[1] Referência a Galvão, Walnice N. Diário de uma expedição. Cia das Letras: SP, 2000. (P) julho 2008.

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