Razão e sensibilidade

Uma fotografia convida seu observador a viajar para dentro dela.

Poderíamos passar alguns minutos dentro de uma delas. Talvez alguns minutos dentro de uma fotografia fosse um tempo razoavelmente suficiente para que alguém pudesse compreender o que costumamos chamar de processo criativo ou mesmo experiência estética, ou seja, o caminho pelo qual alguém percorre até chegar ao seu pretendido destino. Este caminho e determinado por uma razão qualquer. Talvez aqueles minutos fossem poucos para que realmente alguém pudesse vislumbrar tal propósito.

Dito isso, volto-me para ao ensaio fotográfico a mim apresentado, construído por um pouco mais do que uma dúzia de fotografias, sendo que a maioria delas dispostas no sentido vertical. Logo posso comprovar que minha tese sobre o processo construtivo feito a partir de um propósito apoiado em uma boa razão, seja ela lá qual for.

Filipe Cartaxo, apesar de seu recente ingresso no mundo da realidade bidimensional, demonstra com muita maturidade uma grande segurança no seu observar.

Este ensaio, construído numa relação quase corporal, tal como um etnólogo que descreve seus momentos, numa construção participativa aonde os personagens ajudam a determinar o momento do click final. A sensibilidade com que os atores são organizados, uma organização quase matemática, aonde modelos, luzes e adereços dividem e constituem perfeitamente os 35 milímetros da realidade criada pelas suas lentes.

Por fim, a seqüência ou pelo menos as imagens constates por este ensaio demonstram em Filipe a mesma maturidade que outro fotógrafo de maior bagagem, pelo menos no que diz respeito ao olhar. Um olhar moderno, ângulos cortes e perspectivas transversais, criando no observador um questionamento intrigante sobre suas razões porem nunca sobre sua sensibilidade.

Marcelo Reis
Fotógrafo e coordenador da Casa da Photographia
Verão de 2005