A Gosto da Fotografia . ano 1 . 2004

A arte fotográfica torna-se o foco dos acontecimentos culturais da capital baiana no próximo mês.

Organizando uma série de exposições, discussões, palestras, workshops, leituras de portfolio e mostras de vídeos simultâneas em diversos pontos de Salvador (BA), a Casa da Photographia prepara a Semana A Gosto da Fotografia, em homenagem ao dia mundial do seu descobrimento: 19 de agosto. Serão quase 15 profissionais expondo e debatendo nas galerias e faculdades de comunicação da cidade e 20 iniciantes talentosos, ex-alunos da Casa. “Fotograficamente falando, a Bahia está muito parada em eventos. São poucos debates e fotógrafos escoando suas obras. Com a Semana, queremos mostrar o potencial que Salvador tem e muitos, até mesmo da área, não conhecem”, fala Marcelo Reis, criador da idéia e fundador da Casa da Photographia (www.casadaphotographia.art.br).

A abertura será com as obras dos fotógrafos Marcelo Reis, Valéria Simões, Isabel Gouvêa e Eriel Araújo, Caetano Dias, Marcio Lima e Roberto de Souza 30 de julho (sábado), na Associação Cultural Brasil – Estados Unidos (ACBEU). Dia 12 de agosto (quinta), os mesmos artistas irão compor a mesa de discussão sobre produção cultural da fotografia na Bahia. A fotógrafa Alice Ramos, conhecida por sua visão que privilegia a estética das “gordinhas”, é homenageada no foyeur do Teatro Vila Velha. Já no Cine Sala de Arte Bahiano de Tênis, o destaque é Antonio Olavo e no Cine XIV, Juarez Paraíso. Os três conhecidos fotógrafos irão expor nos espaços culturais, juntamente com os ex-alunos da Casa da Photographia.

Outro ponto forte da programação é o encerramento da primeira oficina do projeto “Um olhar sobre a Vila América”; mais uma idéia da Casa da Photographia; dia 19 de agosto, na Fundação Pierre Verger. “Trabalhamos com 20 jovens residentes na comunidade da Vila América, durante o primeiro semestre de 2004. Eles desenvolveram atividades de pesquisa e registro, usando como ferramenta principal a fotografia PinHole”, explica Marcelo Reis. Com patrocínio das Lojas Minilab a técnica foi aprendida em aulas realizadas na Fundação da Pierre Verger. Aprovado pelo Conjunto Cultural da Caixa, as atividades de ensino do Pinhole seguem durante todo o segundo semestre de 2004.

Pra quem procura conselhos sobre o material que anda produzindo, a dica é as leituras de portfolio com mestres da fotografia baiana. Mr. Tym (moda), Rejane Carneiro (fotojornalismo), Antonio Olavo (fotodocumental) Almir Bibbillatti (publicidade) e Alice Ramos (foto arte) estarão a disposição de quem deseja uma opinião mais apurada de suas fotografias. Toda a programação, inclusive os workshops serão gratuitos.

Fotógrafa homenagiada_ALICE RAMOS

Ex-aluna do curso de Design da Escola de Belas Artes da UFBa, Alice Ramos começou a atuar como fotógrafa autônoma em 1992. Realizou estágios em estúdios e laboratórios baianos e durante um ano e meio trabalhou como repórter fotográfica do caderno de cultura do jornal Correio da Bahia. Mas foi a partir de 1995 que seu nome começou a ser conhecido no meio artístico baiano, graças à repercussão alcançada pelo projeto “Redondamente Enganado”.

Com 80 quilos distribuídos em apenas 1.59m, Alice lançou um desafio aos padrões da moda e um convite às gordinhas baianas: mostrar a sensualidade e a leveza de seus corpos volumosos, posando nuas para sua câmera. A proposta atraiu centenas de mulheres, chamou atenção da mídia e virou notícia em programas nacionais de TV de grande audiência além de matéria de destaque nos principais jornais.

O percurso das fotos de Alice foi igualmente bem – sucedido. Em 1997, o ensaio lhe rendeu o Prêmio Nacional de Fotografia da Funarte – o mais importante do país no gênero – na categoria Fotógrafo Emergente. Pouco tempo depois, foi apresentado na 2ª Bienal Internacional de Fotografia de Curitiba. Os flashes das gordinhas fizeram tanto sucesso que o curador do evento selecionou três deles para integrar o acervo do primeiro museu da fotografia da América Latina, inaugurado no Paraná. “Redondamente Enganado” foi ainda matéria de capa da conceituada revista Íris, especializada em fotografia, e assunto em diversas publicações de circulação nacional.

Outro ensaio da fotógrafa, “Maragogipinho”, foi exibido na França em 1998, como parte integrante da mostra Bahia em Paris, promovida pelo Governo do Estado da Bahia em parceria com a Embaixada do Brasil em Paris. O ensaio é um estudo sobre as olarias, objetos de barro e tipos humanos do local.

Leonina com ascendente em Áries, Alice explora a sua versatilidade artística. Ela integrou o bem-humorado grupo “As Raidiantes”, cantando, dançando e atuando em espetáculos performáticos e em 1999, inspirada no nascimento de Amora, sua filha, desenvolveu o projeto “Iluminadas”, especialmente dedicada às futuras mamães, com fotos que registram desde o crescimento da barriga da gestante, até o nascimento de bebês nas salas de parto dos principais hospitais de Salvador.

Atualmente desenvolve um novo ensaio fotográfico para um livro de textos poéticos homoeróticos, O amor dos Homens, retratando com ousadia o namoro homossexual de casais em atitudes de virilidade sexual.

Fotógrafo homenageado _ANTONIO OLAVO

… Porque se chama Antonio

também se chama sonho

e sonhos realizados….

Guerrilheiro do vídeo e da fotografia,

insuperável na arte de emboscadas,

junto com milhares de homens, acredita

e vive.

O fotógrafo Antonio Olavo nasceu em Jequié, em 1955 e para minha surpresa confessa que tem 15 anos que não aparece por lá …”tem muita gente boa no exilo…”.

Com vigor, emoção e profundo respeito, vai me contando que tudo começou pelo cinema. Em 1975 fez um curso com Guido Araújo quando era calouro de Geologia na UFBA, sendo indicado para o filme “Dona Flor” de Bruno Barreto, trabalhando como segundo assistente de direção. Em seguida emendou com “Pastores da Noite”, uma produção franco-brasileira dirigida por Marcel Camus e um ano depois, com curta “Diga Aí Bahia” de Emiliano Ribeiro.

“O cinema me fez optar pela fotografia. Trabalhar em equipes grandes e ecléticas era uma dificuldade, queria uma linguagem em que eu pudesse ter o controle de todo o processo de produção”.

Começou a trabalhar profissionalmente como fotógrafo em 1977, fez dezenas e dezenas de casamentos, batizados, aniversários, pôster de cachorro, de madame,  de tudo que pudesse dar algum dinheiro. Nesta época fazia política estudantil, tinha uma vida muito simples e então ia sobrevivendo. Em 1981 o mercado entrou numa crise muito grande, então foi ser operário em uma obra do IPAC – Instituto do Patrimônio Histórico, na função de apontador, trabalhando nove horas por dia. Três meses depois, quando foi pedir demissão, seu chefe lhe avisou que havia aparecido uma vaga de fotografo, no lugar do inesquecível Dilton Mascarenhas, …”que se antecipou a todos nós, mudou de profissão e foi criar gado no interior de Minas”.

Trabalhou então na equipe de fotografia do IPAC de 1981 a 92 e considera que foi uma excelente experiência. Lá aprimorou conhecimentos de laboratório, realizou bons trabalhos fotográficos no Centro Histórico de Salvador e se aproximou de Canudos. Isto mudou sua vida. Conheceu a região em 1983, quando fotografou a Serra da Santa Cruz para o tombamento nacional pelo IPHAN. Conheceu a historia e se apaixonou!

“Passei então a me dedicar a contribuir para que esta história oculta se tornasse mais visível. Vinte anos depois vejo que consegui fazer este trabalho a que me propus”. Em 1989 publica o livro “Memórias Fotográficas de Canudos”, extenso trabalho de documentação e pesquisa. Em 1993 retorna ao cinema, produzindo e dirigindo o documentário “Paixão e Guerra no Sertão de Canudos”. Este filme circula até hoje, “de mão em mão”, são mais de 4.900 cópias VHS numeradas, distribuídas no mercado alternativo, nunca por sistema de locadoras.

A matemática de Olavo traduz sua opção de vida. Conta que quando terminou o filme tinha uma dívida de 20 mil dólares. O lançamento foi nos Estados Unidos, na Universidade da Carolina do Norte, durante um Festival de Cinema Latino Americano, quando ganhou três mil dólares entre cachê e vendas. No Brasil, lançou em cento e oitenta e duas localidades de dez estados, capital e interior, praças, sindicatos, igrejas, escolas, centros culturais e em festivais em hotéis cinco estrelas. Ganhou mais alguns prêmios e terminou de pagar em 2001 quando vendeu por R$7.500, 00 para a TV Câmara de Brasília.

“A partir daí, me senti no direito de me endividar com novos projetos. E foi o que aconteceu. Comecei a fazer calendários de parede com os objetivos de difundir um pouco da memória popular brasileira e de ter um instrumento de veiculação de minhas imagens”. Em 1997 publica o calendário “Canudos”, em 2000 o “500 Anos de Luta Popular”, em 2001 o “Bahia Negra” e em 2002, o “Brasil Rebelde”. “Aí então, achei que o endividamento estava muito grande, pois o único calendário que se pagou, foi o “Bahia Negra”, isto é, apenas os custos gráficos. Foi o que teve mais repercussão, pois a lacuna neste tema é muito grande, é muito usado em salas de aula”.

Nos últimos três anos está realizando um documentário sobre quilombos na Bahia, dentro desta linha de buscar valorizar a memória popular. No ano passado conseguiu um patrocínio através do qual está tendo condições dignas de trabalho. O documentário será lançado em novembro e será doado para quatro mil e trezentas escolas publicas da rede publica do ensino fundamental e médio da Bahia, acompanhado de manual pedagógico e mapa dos quilombos da Bahia.

“Mantenho muito viva esta emoção pela historia oral, é um gozo profundo trabalhar tendo contato com o que há de mais puro e digno na alma das pessoas, é o que me realiza, me satisfaz, me faz sentir melhor”.

Olavo em sua trajetória demonstra um sentido autoral muito forte, em seus projetos não abre mão de nenhum detalhe de todo o processo produtivo. Centraliza na elaboração, mas o resultado considera como um bem público de fim social.

“Fotografia é uma das identidades do ser humano. Pode também ser uma música, uma poesia, uma frase, um livro, um lugar, uma horta, um plantio de milho, uma carpintaria. Vi tanta gente tendo tanto prazer e identificação pelos lugares e coisas, nestas minhas viagens….”.

Texto de Isabel Gouvêa baseado em entrevista dialogada em 20 de julho de 2004.

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